terça-feira, 1 de julho de 2014

"Coisas de que não preciso para ser feliz" - Por Frei Beto

Oi, faz tempo que não apareço por aqui.
São tantas coisas acontecendo simultaneamente, que não consigo racionar para produzir um texto que tenha sentido. Rs...coisas da vida né.
Recebi esse texto da Mamaji Wanda.
 Ela é uma prima muito querida da minha mãe.
Não tivemos convivência durante os anos que se passaram, mas estamos tentando tirar o atraso.
Ela é uma pessoa pra lá de especial.
E esse texto é muito interessante, uma parada quase obrigatória nesses dias de tanto consumismo.
Aqui vai ele:

"Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do  Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. 
 
Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.
 
Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente.
 
Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'
 
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:
 
'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'.
 
Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'.
 
'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...'
 
'Que tanta coisa?', perguntei.
 
'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa degarota robotizada.
 
Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!
 
 
 
Estamos construindo super-homens e super  mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente  infantilizados.
 
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias!
 
Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!'
 
Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
 
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...
 
A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se  apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
 
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este  tênis,  usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!'
 
O problema é  que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba  precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
 
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental  três requisitos são indispensáveis: amizades,  autoestima, ausência de estresse. Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno.
 
Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de  missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
 
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito,  entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...
 
Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo  hambúrguer do Mc Donald...
 
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:... "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz"!! "
 Frei Beto


Nos vemos em breve pessoal.

2 comentários:

Vicentina disse...

Cucla, que texto maravilhoso e verdadeiro. Me identifiquei com ele, me mudei pra um bairro longe de onde morava, e por aqui não se costuma conversar com vizinhos como eu fazia no outro bairro apesar de já conhecer várias pessoas aqui. Acredita que quase entrei em depressão? Me senti sozinha.
Mas resolvi meu problema, agora saio sozinha vou pro centro, passeio sozinha. Cheguei a conclusão que hoje em dia as pessoas são muito individualistas, e eu tenho que me acostumar, mas amizade faz muita falta.
Sinal dos tempos.
Ótimo texto para reflexão.
Bjs querida

Bombom disse...

Olá Cucla, que bom ter notícias tuas! Olha que este texto também é para ti (he,he)! Andas com muito trabalho, numa roda viva, não te deixes entrar em stress!
Fora de brincadeira, achei este texto muito bem observado e completo. Gostei muito desta reflexão, tão verdadeira nos dias de hoje. Deixamo-nos escravizar pelo TER, quase sem nos darmos conta, e entramos num ritmo frenético que não nos deixa parar para pensar, reflectir e meditar no que é mais importante, o SER.
Obrigada por teres quebrado o silêncio com esta valiosa reflexão. Um abraço da Bombom